6 de mai. de 2016

PODE SER APAGADO O NOME NO LIVRO DA VIDA?

Um dos assuntos que fazem parte do rol de temas polêmicos do estudo das Escrituras Sagradas é a respeito do que conhecemos como Livro da Vida. Existem pessoas que não crêem na existência literal desse livro. Outros crêem que ele, de fato, é real e que contém o nome das pessoas que serão salvas. Se esse livro existe, quando foi escrito? Seria possível que ele ainda estivesse sendo escrito? Os nomes inscritos nesse livro divino podem ser riscados ou eles possuem um caráter inapagável? Essas dúvidas são corriqueiras em neófitos, mas também deixam os mais eruditos estudiosos de cabelo em pé.
O objetivo do presente artigo é apontar algumas considerações sobre o assunto, tendo como ponto de partida o que a Bíblia fala a respeito. Na medida em que o assunto avançar, serão realizadas algumas análises exegéticas do texto grego com a finalidade de ampliar o entendimento acerca desse assunto tão importante. Pretende-se com essas abordagens bíblicas e exegéticas, averiguar quando os nomes foram escritos e pensar se tais nomes podem ou não ser riscados. Não obstante, é preciso reconhecer que este é um dos temas da teologia que não possui unanimidade e, portanto, não é objetivo deste ensaio chamar para si o título de detentor da verdade.

Referências bíblicas do Livro da Vida

Antes de mais nada, é mister reconhecer que a Bíblia referencia a existência de um livro da vida. Em Filipenses 4.3 Paulo comenta que os cooperadores que lutaram ao seu lado pela causa do Evangelho têm seus nomes escritos nesse livro. As demais referências diretas do Novo Testamento estão concentradas no livro de Apocalipse. No capítulo 3 e verso 15, Jesus diz que “O vencedor será igualmente vestido de branco. Jamais apagarei o seu nome do livro da vida, mas o reconhecerei diante do meu Pai e dos seus anjos.”
Em Apocalipse 13.8 é possível ler que esse livro é do Cordeiro de Deus e que algumas pessoas não tiveram o nome escrito nele. Em 17.8 a idéia anterior de pessoas que não tiveram o nome inscrito neste livro é corroborada e aqui o texto sugere que tal livro foi escrito desde a fundação do mundo, assunto que será melhor abordado em seção adiante. Em 20.12 João tem uma visão na qual uma massa de pessoas, i. e, uma multidão de mortos (grandes e pequenos) se colocavam diante do trono e vê dois tipos de livros: um que provavelmente alude aomodus vivendi desses indivíduos enquanto estavam vivos e outro que ele denomina como “livro da vida.” O momento apocalíptico dessa visão se refere ao juízo final e, portanto, as pessoas cujos nomes não são encontrados no livro da vida, são condenadas ao lago de fogo.
No capítulo 21 João tem a visão da Nova Jerusalém. Ele a descreve como sendo um local muito belo, com muralhas e ornamentações de pedras preciosas, além de ruas de ouro. Lá não há sofrimento, choro, lágrimas, tristeza, dor e nem mesmo a morte. Não é preciso de sol, pois Cristo é a luz que ilumina. Todavia, João alerta seus leitores no versículo 27: “Nela jamais entrará algo impuro, nem ninguém que pratique o que é vergonhoso ou enganoso, mas unicamente aqueles cujos nomes estão escritos no livro da vida do Cordeiro.”
O Novo Testamento ainda mostra mais duas passagens que podem ser relacionadas com o citado livro da vida. A primeira passagem é Hebreus 12.22,23, onde o autor da epístola alega que existe uma igreja dos primogênitos. Sua localização é celestial e os detalhes desta localização corroboram com a visão que João teve da Nova Jerusalém em Apocalipse 21. Os nomes dos membros dessa igreja celeste “estão escritos nos céus” (Hb 12.23).
A segunda passagem é um relato de Lucas a respeito de quando o Messias envia os discípulos em dupla para um treinamento prático sobre proclamação do Evangelho. Eles anunciaram as boas novas e voltaram maravilhados, pois coisas extraordinárias aconteceram. “Os demônios se submetem a nós,” disseram eles estupefatos com a autoridade que há no nome de Jesus. Mas, Jesus, ao corrigir-lhes, declarou: “alegrem-se, não porque os espíritos se submetem a vocês, mas porque seus nomes estão escritos nos céu” (Lc 10.20).
Referências sobre tal livro não se limitam aos escritos neotestamentários. Após a morte de aproximadamente três mil israelitas no acampamento ao pé do monte Horebe, Moisés sobe novamente no monte a fim de interceder pelo pecado de idolatria do povo, quando confeccionaram um bezerro de ouro e blasfemaram dizendo que fora este objeto feito por mãos humanas quem os livrou do Egito. A intercessão de Moisés foi: “…perdoa-lhes o pecado; se não, risca-me do teu livro que escreveste.” Um pedido completamente ousado que trouxe uma resposta imediata do Deus Todo-Poderoso: “Riscarei do meu livro todo aquele que pecar contra mim” (Êx 32.32,33).
Num Salmo de lamentação, Davi se rasga o coração diante de suas tribulações e adversidades. Ele se sente atolado de problemas até o pescoço e alega estar deixando a vida o levar, como alguém que é carregado pela correnteza. Quem nunca se sentiu assim? Todavia, a partir do versículo 7 ele começa a revelar uma das razões de sua profunda tristeza. Ele alega que suportava zombaria, insultos, maledicências e o terrível fato de ter seu nome como objeto de sarcasmo na boca dos bêbados da cidade. Isto posto, Davi clama pela justiça divina, dizendo a respeito dos que o perseguiam: “Acrescenta-lhes pecado sobre pecado; não os deixes alcançar a tua justiça. Sejam eles tirados do livro da vida e não sejam incluídos no rol dos justo” (Sl 69.27,28).
Finalmente, duas últimas passagens veterotestamentárias que podem fazer alguma alusão mais indireta ao livro da vida são as visões que Daniel tem do juízo final e da grande tribulação, respectivamente. No primeiro caso ele tem uma visão semelhante à que João teve em Apocalipse 20.12 e vê tronos sendo postos num lugar e um Ancião de vestes brancas como a neve e cabelos brancos como a lã. Seu trono ardia em fogo e tinha a parte inferior incandescente, semelhantemente aos pés como latão reluzente de Apocalipse. Daniel continua descrevendo essa cena, dizendo que “saía um rio de fogo, de diante dele. Milhares de milhares o serviam; milhões e milhões estavam diante dele. O tribunal iniciou o julgamento, e os livros foram abertos” (Dn 7.10). No segundo caso, Daniel vê um tempo de angústia como nunca houve na história humana e relata que neste tempo, “ocasião o seu povo, todo aquele cujo nome está escrito no livro, será liberto” (Dn 12.1).

Quando os nomes são escritos nesse livro?

Algumas pessoas usam Apocalipse 13.8 para apontar quando o livro da vida foi escrito, entretanto, o texto em questão aponta para outra coisa. Antes de analisar a passagem, é melhor citá-la: “Todos os habitantes da terra adorarão a besta, a saber, todos aqueles que não tiveram seus nomes escritos no livro da vida do Cordeiro que foi morto desde a criação do mundo.”
Como se pode perceber, o apontamento temporal “desde a fundação do mundo” não está se referindo, no contexto imediato desta passagem, ao livro da vida e sim a Jesus, o cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo. Stern concorda com isso e afirma que “Deus planejou a morte expiatória dele antes da criação do mundo.”[1] Não que o livro aqui não tenha importância. Ele tem. João enfatiza que seu dono é o Cordeiro! Outra informação importante é a ocorrência do verbo “Foi,” que no grego éesphagmenou e está no tempo aoristo, o que indica algo instantâneo.
Sobre o tempo aoristo na gramática grega, Wiley comenta que, no nosso idioma “não há tempo semelhante na conjugação verbal,” pois trata-se de algo que é feito de modo instantâneo e de uma vez por todas e não gradativamente.[2] O verbo no aoristo faz toda a diferença por dois motivos: 1) porque Jesus não foi morto várias vezes! 2) porque o texto semelhante, localizado em Apocalipse 17.8, usa o verbo em outro tempo gramatical grego, que é o perfeito e isso no contexto imediato aponta para outro lado, conforme será visto logo a seguir.
A fim de analisar a passagem de Apocalipse 17.8, segue a citação da mesma: “A besta que você viu, era e já não é. Ela está para subir do abismo e caminha para a perdição. Os habitantes da terra, cujos nomes não foram escritos no livro da vida desde a criação do mundo, ficarão admirados quando virem a besta, porque ela era, agora não é, e entretanto virá.”
A locução prepositiva grega “apo kataboles kosmou” significa “desde a fundação do mundo” e denota uma considerável diferença entre “antes da fundação do mundo,” pois “desde” fala da inserção dos nomes a partir da criação do mundo, i.e, desde Adão até os dias presentes, significando que Deus está agindo no chronos, inserindo os nomes no livro da vida a partir da conversão das pessoas. Em outras palavras, isso sugere que, quando a pessoa responde positivamente à graça preveniente, Deus opera neste indivíduo – que outrora estava morto em seus delitos e pecados – a salvação, regenerando o tal.
Ademais, o texto diz que “os nomes não estão escritos.” Esse “estão escritos” está conjugado no tempo perfeito do grego e a palavra ali é gegraptai. O tempo perfeito é usado numa ação que foi completada no passado e que está ocorrendo no presente. Esse tempo não tem correlato em português. É como se os nomes fossem conhecidos no kairós (haja vista os atributos naturais e incomunicáveis de Deus, a saber: onisciência e presciência), mas estivessem sendo escritos nochronos. É algo que versa sobre o contraste entre o tempo cósmico e o humano; o sobrenatural e o natural; o metafísico e o físico; o objetivo e o subjetivo; o atemporal e o temporal.
“O perfeito grego [é] um tempo gramatical aberto à evocação simbólica do além tempo.” Trata-se de “um recurso bastante singular” e peculiar do idioma grego. Esse recurso, o tempo perfeito, “exprime a idéia de uma ação começada no passado, mas que continua.”[3] Corrobora com isso Bréal ao comentar que “o perfeito grego conservou sempre na sua significação qualquer coisa que faz dele um intermediário entre o passado e o presente,” sendo usado “para designar uma ação passada cujo resultado dura ainda.”[4]
Um exemplo disso é a tradução do Salmo 2.7 na versão dos setenta (LXX – a septuaginta): “hyios mou eis y, egōsèmeron gegennèka se” ([tu és] meu filho; eu hoje te gerei). O autor da carta aos hebreus interpreta esse verso aplicando-o a Cristo por duas vezes (Hb 1.5; 5.5). O verbo gegennèka (gerei) está no perfeito grego. A aplicação do Salmo 2.7 no Novo Testamento tem a ver com a ressurreição de Cristo (cf. Atos 13.33). Na perspectiva do salmista, o Messias já havia sido gerado (ressuscitado), mas ao mesmo tempo ainda não, pois seria um anacronismo, afinal, o Verbo só encarnou séculos depois. Por isso, o fato estava consumado na eternidade (kairós), porém, teria uma ação efetiva e consolidada no decorrer do tempo humano (chronos).
Outro texto que cabe aqui a análise exegética é Hebreus 12.22-24, que de acordo com a NVI diz assim: “Mas vocês chegaram ao monte Sião, à Jerusalém celestial, à cidade do Deus vivo. Chegaram aos milhares de milhares de anjos em alegre reunião, à igreja dos primogênitos, cujos nomes estão escritos nos céus. Vocês chegaram a Deus, juiz de todos os homens, aos espíritos dos justos aperfeiçoados”
O verbo “chegaram,” logo no início do verso 22 é proselēlythate em grego. Ele está no tempo perfeito e tem o sentido de algo que já acontecera, mas que permanece ocorrendo. Deste modo, poderíamos dizer que o autor da epístola diz aos hebreus crentes que eles já haviam chegado ao monte Sião, mas que continuam a se aproximar.
No trecho “cujos nomes estão escritos nos céus,” do verso 23, o verbo “estão” é apogegrammenōn no grego e também está conjugado no tempo perfeito, dando o sentido de que os nomes estão escritos desde uma era passada, mas permanecem sendo escritos numa relação além-tempo e além-espaço, rompendo assim, com o presente mensurável e quantificável, ligando-o, ao mesmo tempo com o presente atemporal e metafísico.
Gogues e Talbot traduzem o versículo da seguinte maneira: “Mas vos começastes [e continuais] a vos aproximar do Monte Sião e da Cidade do Deus vivo, a Jerusalém Celeste, de milhões de anjos – reunião festiva e Igreja dos primogênitos [tendo começado e continuado a estar] inscritos nos céus – e de Deus, o juiz de todos e dos espíritos dos justos [tendo começado e continuado a se] tornar perfeitos.”[5]
Um último exemplo do tempo perfeito grego pode ser dado através do relato lucano acerca de coisas ocorridas naqueles dias do ministério de Jesus. Em seu prólogo, Lucas declara que “Muitos já se dedicaram a elaborar um relato dos fatos que se cumpriram entre nós” (Lc 1.1). O verbo “cumpriram” ali é peplērophorēmenōn. Lucas mostra que Jesus havia realizado muita coisa naquela região que se dedicou a pesquisar e os atos de Cristo deixaram uma marca muito forte. As pessoas entrevistadas por Lucas podiam sentir o efeito das palavras e dos milagres de Jesus anos depois.
Não é assim também entre nós? Quando tivemos o privilégio de conhecer a Cristo verdadeiramente e entregamos nossas vidas a Ele, algo maravilhoso ocorreu: Ele nos regenerou e ao mesmo tempo nos justificou e adotou. Todavia, essa experiência com Cristo não foi tão somente posicional. Ela também tem seu caráter gradativo. Simultaneamente com a regeneração, justificação e adoção, fomos santificados. A experiência da santificação permanece em nós e só será consumada, definitivamente, com a glorificação.

Os nomes podem ser riscados?

A Escritura aponta para a possibilidade dos nomes serem riscados. O primeiro exemplo a ser tomado é Apocalipse 3.5: “O vencedor será igualmente vestido de branco. Jamais apagarei o seu nome do livro da vida, mas o reconhecerei diante do meu Pai e dos seus anjos.”
Como se pode perceber, a promessa de não ter o nome riscado é para os que vencerem, i. e., aqueles que perseverarem até o fim e que não se apostatarão. Parafraseando, é como se Jesus estivesse dizendo “não apagarei o nome daqueles que vencerem, daqueles que perseverarem até o fim.” Em contrapartida, é óbvia a dedução de que se existem pessoas que perseverarão e vencerão, haverá pessoas que se apostatarão e serão derrotadas.
O verbo “riscar” é exaleipso e está conjugado no tempo futuro. Algo que ainda será feito. Nomes ainda serão riscados por Jesus enquanto outros não serão riscados e, por conseguinte, permanecerão escritos no livro da vida. O verbo “riscar” usado no texto de Apocalipse 3 significa, em grego, aniquilar, apagar, cancelar. Tem a ver com passar tinta ou cal a fim de apagar algo, ou com esfregar uma escrita e imprimir um selo em alguma tabuleta de cera. Essa palavra era usada para se referir ao cancelamento de obrigações e direitos.
Um modo interessante de mostrar essa verdade é analisando o que Paulo disse em 2 Timóteo 4.7: “Combati o bom combate, terminei a corrida, guardei a fé.” A NVI já traduz a palavra grega dromoncomo “corrida,” mas a maioria das outras versões em português traduzem como carreira. Essa ilustração de Paulo é interessante porque a vida cristã é exatamente como uma corrida. Existe o ponto de partida (conversão), o trajeto (vida cristã e santificação) e a chegada (glorificação). Alguns vão começar essa corrida e não a terminarão, ficarão no meio do caminho e tristemente terão seus nomes riscados do livro da vida.
Outro texto prova da possibilidade de ter o nome riscado é a oração intrépida de Moisés. Conforme já foi apontado mais no início do ensaio, Moisés subiu mais uma vez no monte a fim de interceder pelo pecado de idolatria do povo israelita, pois eles confeccionaram um bezerro de ouro e blasfemaram dizendo que fora este objeto feito por mãos humanas quem os livrou do Egito. A intercessão de Moisés foi: “…perdoa-lhes o pecado; se não, risca-medo teu livro que escreveste.” E a resposta de Deus, em seguida, foi: “Riscarei do meu livro todo aquele que pecar contra mim” (Êx 32.32,33 – grifos meus).
Moisés não faria uma oração dessas se ele não acreditasse na possibilidade de um nome ser riscado do livro da vida. Outrossim, Deus não responderia essa oração afirmando que risca somente os nomes daqueles que pecam contra ele, ou seja, daqueles que vivem na prática contínua e habitual do pecado. Kistemaker alega que no Antigo Testamento, a expressão “ser apagado do livro” significava “morrer.”[6] Nessa concepção, Moisés teria dito a Deus, “perdoa o povo ou me mate.” Todavia, Stern, que é um judeu messiânico, confirma que a crença judaica no episódio de Moisés tinha a ver com a eternidade e não com a morte terrena e atesta, ainda, que os judeus acreditam que “é possível sair da graça e ter o destino eterno mudado de salvação para condenação.”[7]
Concluindo essa seção, é interessante abordar mais uma vez o relato de Lucas a respeito de quando o Messias enviou os discípulos de dois em dois em Seu treinamento prático sobre proclamação do Evangelho. Esses discípulos anunciaram as boas novas e voltaram maravilhados, pois coisas extraordinárias aconteceram. “Os demônios se submetem a nós,” disseram eles estupefatos com a autoridade que há no nome de Jesus. Mas, Jesus, ao corrigir-lhes, declarou: “alegrem-se, não porque os espíritos se submetem a vocês, mas porque seus nomes estão escritos nos céu” (Lc 10.20).
Seria possível um discípulo se desviar? Segundo o dicionário VINE, discípulo é um aprendiz, alguém que aprende com esforço, um seguidor, alguém que permanece nos ensinos de seu mestre e finalmente, imitador. Jesus disse aos judeus que creram em sua mensagem: “Se vocês permanecerem firmes na minha palavra, verdadeiramente serão meus discípulos” (João 8.31). Observe que nesse texto há uma condição: “se.” Somente aquele que permanece se torna um legítimo discípulo. Em contrapartida, Jesus deixa claro com essas palavras que é possível não permanecer, i. e., deixar de perseverar.
Existem inúmeras exortações para que os crentes permaneçam e perseverem na presença do Altíssimo, bem como avisos sobre o perigo e possibilidade de apostasia (Mt 10.22; 24.12,13; 1 Co 10.12; Gl 5.4; 2 Ts 2.15; 1 Tm 4.1; 2 Tm 3.14; Hb 8.9; 10.39; Tg 5.19,20; 1 Pe 1.5; 2 Pe 2.20-22; 1 Jo 2.24; Ap 2.11). Seria estranho que Deus colocasse advertências contra a apostasia se isso não fosse possível acontecer. Deste modo, um discípulo que teve o nome escrito no livro da vida, ao se apostatar da fé, terá seu nome riscado.
Pedro comenta de obreiros que abandonaram o caminho reto, desviando-se dele (2 Pe 2.15). Ninguém abandona algo que não experimentou e vivenciou. E ninguém se desvia de um caminho que não estava seguindo. O Apóstolo comenta, ainda, que esses obreiros apóstatas chegaram a escapar das contaminações do mundo por meio do conhecimento de Jesus, mas permitiram ser dominados de novo por essa vida deliberadamente pecaminosa e estão piores do que estavam antes de se converterem (v. 20). Ora, somente alguém que foi regenerado é que se torna descontaminado (purificado ou santificado) do pecado. De acordo com a crítica de Pedro, o que provocou essa descontaminação (libertação) do pecado é foi conhecimento de Jesus, e João testifica isso em seu Evangelho (Jo 8.32).
Paulo atesta essa verdade (de que o regenerado escapa das contaminações do mundo) ao mostrar que quem nasce de novo é lavado, santificado e justificado (1 Co 6.11) e que Cristo “nos salvou pelo lavar regenerador e renovador do Espírito Santo” (Tt 3.5). Jesus purifica sua igreja pelo lavar de água mediante a Palavra (Ef 5.26) e “se entregou por nós a fim de nos remir de toda a maldade e purificar para si mesmo um povo particularmente seu, dedicado à prática de boas obras” (Tt 2.14). A Bíblia declara que o sangue de Cristo purifica nossa consciência de atos que levam à morte (Hb 9.14).
Deste modo, Pedro conclui: “Teria sido melhor que não tivessem conhecido o caminho da justiça, do que, depois de o terem conhecido, voltarem as costas para o santo mandamento que lhes foi transmitido” (2 Pe 2.21). Tais apóstatas, na opinião petrina, são como “o cão [que] voltou ao seu vômito” e como “a porca lavada [que] voltou a revolver-se na lama” (v. 22).

Considerações finais

Após refletir sobre o assunto, pode-se enumerar três informações coletadas a partir da Bíblia em relação aos nomes do livro da vida:
1) Alguns não tiveram o nome escrito;
2) Alguns tiveram o nome escrito;
3) Alguns dos que tiveram o nome escrito poderão tê-lo riscado, caso não perseverem.
Partindo desses três pontos e de tudo o que foi considerado bíblica e exegeticamente neste ensaio, é possível fazer uma analogia: é como se Deus tivesse uma espécie de “cartório.” Quem nasce de novo tem seu nome registrado no livro da vida. Quem continua morto (ou seja, que não se converte) nunca terá esse nome escrito. Mas se esse que nasceu de novo se apostatar terá o nome apagado do cartório de registros.
Referências
[1] STERN, David. Comentário Judaico do Novo Testamento. Belo Horizonte: Atos, 2007, p. 900
[2] WILEY, Orton. Introdução à Teologia Cristã. Campinas: CNP, 1990, pp. 353.
[3] GOUGUES, Michel; TALBOT, Michel. Naquele tempo…. Concepções e práticas daquele tempo. São Paulo: Loyola, 2004, p. 34.
[4] BRÉAL, Michel. Essai de Sémantique. Paris: Hachete, 1924, p. 349.
[5] GOGUES; TALBOT. Op. Cit., p. 36.
[6] KISTEMAKER, Simon. Comentário do Novo Testamento: Apocalipse. São Paulo: Cultura Cristã, 2004, p. 206.
[7] STERN, David. Op. Cit., p. 921.
Por Vinicius Couto do site Gospel Prime em 10/04/2016

22 de abr. de 2016

ESCOLA DE PROFETAS

 
 
 
Texto Básico:2Rs 6:1-7
 
“Tu, pois, meu filho, fortifica-te na graça que há em Cristo Jesus. E o que de mim, entre muitas testemunhas, ouviste, confia-o a homens fiéis, que sejam idôneos para também ensinarem os outros” (2Tm 2:1,2).

1. Introdução


Nos dias de Elias, a apostasia e a vergonhosa idolatria haviam se alastrado entre o povo de Deus, impulsionadas pelos devaneios de Acabe e Jezabel. O povo de Israel havia trocado a glória de seu Deus pela fútil veneração ao falso deus Baal, considerado pelos desviados e apóstatas como o “senhor da chuva e das tempestades”. Mas, o assombroso confronto no Monte Carmelo entre Elias e os falsos profetas de Baal e Aserá bem como os fenomenais prodígios de Eliseu começaram a reverter a triste situação. Aqueles que antes se escondiam pelo temor de Jezabel passaram a manifestar publicamente a sua fé. O despertamente foi tamanho que, por toda parte, surgiram “escolas teológicas” formando novos mensageiros de Jeová. Haviam grupos de estudantes em Ramá, Gibeá, Gilgal e Jericó (2Rs 2:3,5,7,15; 4:1,38; 9:1,2). Por diversas vezes, em algumas passagens nos livros dos Reis, vemos aparecer a expressão “filhos dos profetas”, mas pelo contexto destas passagens percebe-se que tem a mesma significação que “escola de profetas”. Ressalta-se que as “escolas de profetas” não tinham como propósito ensinar a profetizar, isso é uma atribuição divina; era um testemunho vivo de que o povo de Deus, em um passado distante do Antigo Testamento, preocupava-se em passar às gerações mais novas sua experiência cultural e espiritual.

Neste subsidio à lição 12, quero esclarecer um pouco mais dessas “escolas”, seu cotidiano, seus objetivos e sua relevância.

2. A instituição das “escolas de profetas”. Nem todos os profetas do passado tiveram uma formação teológica convencional. Amós, por exemplo, saiu diretamente do agreste judaico para as ruas de Samaria (capital de Israel – Reino do Norte), proclamando sua mensagem profética da única maneira que sabia: “cantando”. Miquéias, à semelhança de Amós, era homem do campo, e provinha de família humilde, mas ergueu a voz para denunciar os pecados de Jerusalém e os esquemas de corrupção no palácio, no poder judiciário e nos corredores do Templo. A maioria dos profetas, no entanto, até mesmo aqueles que nos são desconhecidos, receberam uma formação teológica mais “especializada”. Por serem uma escola - tipo um seminário -, entende-se que possuía uma certa estrutura física e uma organização mínima para funcionamento a contento, e estavam sob uma liderança que oferecia a devida orientação adequada. No texto de 2Reis 6:1, verificamos que Eliseu era o líder maior dos discípulos dos profetas, e era com ele que buscavam instrução. À época do profeta Samuel essas escolas já existiam; tudo indica que ele tenha sido o primeiro a tomar a iniciativa de organizar esse tipo de “ensino teológico” (cf 1Sm 10:5,10; 19:23). Geralmente os estudantes moravam juntos em uma casa ou em pequenas comunidades, onde o ensino era ministrado (2Rs 6:1,2). Alguns “seminaristas” eram casados e mantinham seus próprios lares (2Rs 4:1).

3. Objetivos das “escolas de profetas”: treinamento e encorajamento.

-          Com relação ao treinamento, além da teoria, a execução de determinadas tarefas, sob permissão do instrutor, eram permitidas, como se observa no ocorrido de 2Reis 2:15-17: “Vendo-o, pois, os filhos dos profetas que estavam defronte em Jericó, disseram: O espírito de Elias repousa sobre Eliseu. E vieram-lhe ao encontro e se prostraram diante dele em terra. E disseram-lhe: Eis que, com teus servos, há cinqüenta homens valentes; ora, deixa-os ir para buscar teu senhor; pode ser que o elevasse o Espírito do Senhor e o lançasse em algum dos montes ou em algum dos vales. Porém ele disse: Não os envieis. Mas eles apertaram com ele, até se enfastiar; e disse-lhes: Enviai. E enviaram cinqüenta homens, que o buscaram três dias, porém não o acharam”. Esse processo interativo entre o líder e o liderado, entre o educador e o educando, é vital para produção do conhecimento. Em outras situações observamos que os filhos de profetas, quando já treinados, podiam agir por conta própria em determinadas situações (1Rs 20:35).

-          Com relação ao encorajamento, os alunos eram encorajados a buscarem uma melhor compreensão da Palavra de Deus. Não há objetivo maior para um educador do que encorajar o educando a buscar a excelência no ensino.

4. Currículo das “escolas de profetas”. A formação acadêmica dos “discípulos de profetas” consistia no estudo das Escrituras (os livros históricos e os poéticos) e das leis mosaicas. Havia espaço ainda para a instrução na música sacra e na poesia (1Sm 10:5). O “professor”, um profeta mais experiente, transmitia o ensino com seu exemplo de vida e seu trabalho, e eram eles mesmos que consagravam os novos obreiros à missão de reconduzir o rebanho desgarrado de Israel ao aprisco do Senhor, o pastor de nossa  alma (Sl 23).

5. Aprendendo na provação. A vida diária nas escolas de profetas não era nada cômoda. Os estudos eram exaustivos, as acomodações eram precárias (2Rs 6:1), a falta de recursos era uma constante (2Rs 4:1), o trabalho era árduo e, se não bastasse isso tudo, a comida era escassa, geralmente produzida por eles mesmos, em hortas comunitárias. As coisas ficaram ainda piores quando Deus enviou uma estiagem que durou sete anos (cf. 2Rs 8:1). Se a nação toda padeceu, quanto mais aqueles que deixaram tudo pelo ministério!

Foi exatamente nesse contexto de crise que Eliseu, o “homem de Deus”, chegou no seminário de Gilgal para uma “série de conferências”. A receptividade foi calorosa, mas a despensa estava vazia. Eliseu enviou um dos alunos ao campo para colher frutos e raízes comestíveis, a fim de preparar um sopão para todos. Mas algo saiu errado: um dos ingredientes estragou a sopa, tornando-a amarga e venenosa. A “colocíntida” (2Rs 4:39), uma espécie de pepino selvagem, em pequenas quantidades era usada para fins medicinais, mas em grande quantidade tornava-se tóxica e extremamente amarga.

Uma das coisas admiráveis neste texto é que, embora o gosto estivesse horrível, todos comeram sem reclamar. O único comentário que surgiu foi quando atinaram para o perigo de conter algo venenoso. Essa é uma boa lição de educação, respeito e ética. Interessante também é notar que Deus permitiu tal acontecimento para mostrar o Seu cuidado aos que a Ele se consagram. Deus usa o homem, e o homem usa o que tem à mão. Eliseu usou farinha, e esse ingrediente anulou o veneno. O milagre aconteceu, não por causa da farinha, mas pela fé de Eliseu. Ele poderia ter usado cevada, hortelã, pão ou qualquer outro ingrediente, e o resultado seria o mesmo.

Aprendemos com esses seminaristas que: Deus cuida de Seus servos, geralmente usando o que eles têm à mão aliado à quantidade de sua fé. A viúva do profeta (2Rs 4:1-7) colocou perante Deus, o pouquinho que tinha, e no que é que deu? Da mesma forma, se usarmos aquilo que temos, ainda que seja pouco, e usarmos com fé, grandes coisas Deus fará por nós.

6. Ensinando através do exemplo. Eliseu demonstrou o poder de Deus com milagres realizados, mas também ensinou pelo seu próprio exemplo. Citamos dois exemplos:

- Primeiro exemplo: Certa feita, um homem da cidade vizinha (Baal-Salisa) veio à “casa de profetas” trazer uma oferta em mantimentos para o sustento de Eliseu, conforme prescrevia a Lei de Moisés (Nm 18:13; Lv 23:10; Dt 18:4). A oferta era generosa para um só homem “professor”, mas insuficientemente para cem alunos (2Rs 4:43). Era um direito de Eliseu reter a oferta só para si, pois “digno é trabalhador do seu salário” (Lc 10:7), contudo, preferiu repartir aquela bênção com os demais colegas de ministério, e Deus abençoou a sua decisão: “todos comeram e ainda sobrou” (2Rs 4:43). Eliseu demonstrou a principal virtude de um homem de Deus: amor ao próximo. Este exemplo que Eliseu manifestou certamente foi um grande ensino para aqueles discípulos. Ele demonstrou o seguinte modo de viver: o que é meu também é teu. Aquele que reparte de bom grado as suas dádivas sempre as terá em abundância – “Daí, e dar-se-vos-á; boa medida, recalcada, sacudida, transbordante, generosamente vos darão; porque com a medida com que tiverdes medido vos medirão também “ ( Lc 6:38).

- Segundo exemplo: Geazi era seu aluno, e convivia com o profeta, vendo milagres. Não é exagero dizer que Eliseu aprendeu muitas coisas com o convívio que teve com Elias, e Geazi também observou os atos de Eliseu. Mas aqui cabe uma observação: Ao passo que Eliseu aprendeu coisas com Elias e teve um ministério frutífero, Geazi optou pelo caminho oposto. Na ocasião em que esteve com o capitão siro Naamã, Geazi demonstrou que não estava apto para o ministério profético pois foi seduzido pelos presentes que Naamã, já curado, ofereceu a Eliseu. Nessa ocasião, vendo Geazi que Eliseu rejeitou os presentes de Naamã, cobiçou-os e foi atrás do siro, contando-lhe uma história piedosa:

“E foi Geazi em alcance de Naamã; e Naamã, vendo que corria atrás dele, saltou do carro a encontrá-lo e disse-lhe: Vai tudo bem? E ele disse: Tudo vai bem; meu senhor me mandou dizer: Eis que agora mesmo vieram a mim dois jovens dos filhos dos profetas da montanha de Efraim; dá-lhes, pois, um talento de prata e duas mudas de vestes. E disse Naamã: Sê servido tomar dois talentos. E instou com ele e amarrou dois talentos de prata em dois sacos, com duas mudas de vestes; e pô-las sobre dois dos seus moços, os quais os levaram diante dele. E, chegando ele à altura, tomou-os das suas mãos e os depositou na casa; e despediu aqueles homens, e foram-se” (2Rs 5:21-24).

Mas, Deus julgou severamente o cobiçoso e materialista Geazi:

“Então, ele entrou e pôs-se diante de seu senhor. E disse-lhe Eliseu: De onde vens, Geazi? E disse: Teu servo não foi nem a uma nem a outra parte. Porém ele lhe disse: Porventura, não foi contigo o meu coração, quando aquele homem voltou de sobre o seu carro, a encontrar-te? Era isso ocasião para tomares prata e para tomares vestes, e olivais, e vinhas, e ovelhas, e bois, e servos, e servas? Portanto, a lepra de Naamã se pegará a ti e à tua semente para sempre. Então, saiu de diante dele  leproso, branco como a neve” (2Rs 5:25-27).

Porque Deus julgou Geazi de forma tão severa? Primeiro, porque ele foi um homem cobiçoso. Segundo, porque ficou indignado de ver Naamã ser curado e não pagar nada pela cura que recebeu. Terceiro, porque mentiu para obter os presentes que Naamã daria a Eliseu. Quarto, não podemos usar os dons que Deus nos concede para lucrar de forma pessoal.

Que essas observações nos sirvam de exemplo, para que não sejamos julgados por Deus por conta de tais manifestações de infidelidade.

CONCLUSÃO


As Escolas de profetas na época de Elias e de Eliseu eram dedicadas ao ensino formal da Palavra de Deus e ao comportamento ético do futuro profeta. A preocupação com o aspecto espiritual do povo de Israel era sua principal bandeira esses líderes. Esses futuros profetas seriam mais tarde líderes que teriam de confrontar as falsas teologias e a idolatria que os maus reis obrigavam o povo a aceitar. Assim como era importante o estudo da Palavra de Deus naquela época, também o é atualmente. Infelizmente, os tempos mudaram e os seminários teológicos se “conformaram com o mundo” – procuram parecenças com as faculdades seculares e, por isso, buscam reconhecimento do MEC -, mas o prejuízo tem sido enorme, pois a teologia liberal tem predominado sobremaneira na maioria dos seminários com prejuízos incalculáveis à ortodoxia das Escrituras Sagradas.

Em qualquer época, sejam tempos de fartura ou tempos de escassez, de paz ou de guerra, de bonança ou de tempestade, a Igreja tem a responsabilidade de salvaguardar a verdadeira e original doutrina bíblica que se acha nas Escrituras Sagradas, e transmiti-las aos fiéis - “Tu, pois, meu filho, fortifica-te na graça que há em Cristo Jesus. E o que de mim, entre muitas testemunhas, ouviste, confia-o a homens fiéis, que sejam idôneos para também ensinarem os outros” (2Tm 2:1,2).

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Elaboração: Luciano de Paula Lourenço – Prof. EBD – Assembléia de Deus – Ministério Bela Vista. Disponível no Blog: http://luloure.blogspot.com

Referências Bibliográficas:

William Macdonald – Comentário Bíblico popular (Antigo Testamento).

Bíblia de Estudo Pentecostal.

Bíblia de estudo – Aplicação Pessoal.

O Novo Dicionário da Bíblia – J.D.DOUGLAS.

Comentário Bíblico NVI – EDITORA VIDA.

Revista Ensinador Cristão – nº 53 – CPAD.

A Teologia do Antigo Testamento – Roy B.Zuck.

Comentário Bíblico Beacon, v.2 – CPAD.

Porção Dobrada – Pr. José Gonçalves – CPAD.

Comentário do Novo Testamento – Aplicação Pessoal.

Elias e Eliseu (homens de ação) – Editora cristã Evangélica.

17 de mar. de 2016

INTERPRETAÇÃO LITERAL DAS ESCRITURAS



A interpretação literal é mais apropriada

Ron Rhodes
No início dos anos 80, trabalhei em um serviço de correspondência cristão, juntamente com mais algumas dezenas de estudantes do Seminário de Dallas. Nós entregávamos certos tipos de documentos na área de Dallas e de Fort Worth.
Para esse serviço, foi necessário aprender a utilizar um guia de ruas. Com o auxílio do índice, no final do guia, ficava fácil e rápido encontrar a página certa e até o segmento da página onde se podia identificar a rua procurada. Constantemente éramos alertados: “Enquanto utilizássemos corretamente o guia de ruas não haveria erros para encontrar os endereços pretendidos”. Toda vez que ocorria um engano na busca de algum endereço, a razão era a de não ter procurado a orientação no guia com a devida atenção.
Com a Bíblia ocorre algo semelhante. Enquanto a lermos com a devida atenção, isto é, enquanto fizermos a interpretação adequada dos seus ensinamentos, não corremos o risco de nos perdermos em suas páginas ou de cometermos enganos. Então compreenderemos a Bíblia da maneira como Deus pretendia que fosse.
Gostaria de falar brevemente sobre o modo correto de ler a Bíblia. Se o fizermos dessa maneira, teremos condições de entender as revelações que Deus fez, através da Profecia Bíblica, também de modo correto – principalmente no que diz respeito à cronologia profética. Por outro lado, teremos melhores condições de verificar o quanto as interpretações proféticas da Teologia da Substituição[a] e do Preterismo[b] são falhas.

[a] A Teologia da Substituição afirma basicamente que a Igreja substituiu Israel no plano de Deus e que as promessas feitas para Israel serão cumpridas pela Igreja.
[b] A palavra “Preterismo” é derivada do termo preter, em Latim e significa “passado”. De acordo com essa perspectiva, as profecias do livro de Apocalipse (principalmente dos capítulos 6-18) e do Sermão do Monte das Oliveiras, proferido por Jesus (Mateus 24-25), já foram cumpridas.

Iniciaremos com a aplicação da interpretação literal nas Escrituras. O termo “literal”, utilizado na Hermenêutica (a ciência da interpretação bíblica) tem origem no Latim – sensus literalis – e pretende descobrir o sentido literal do texto, ao contrário de um sentido não literal ou alegórico. Trata-se de procurar a compreensão que uma pessoa com inteligência normal teria ao ler um texto, sem a aplicação de chaves ou códigos especiais.
A interpretação literal das Escrituras também pode ser definida como o entendimento dos conceitos com base na vida diária normal. As palavras recebem o mesmo significado que possuem numa comunicação usual. Trata-se de interpretar uma passagem bíblica da maneira normal ou óbvia. No entanto, é necessário mencionar algumas limitações.

O método literal não exclui expressões idiomáticas ou figuras de retórica

Quando a Bíblia menciona os olhos, os braços ou as asas de Deus (Sl 34.15; Is 51.9; Sl 91.4), isso não deveria ser interpretado literalmente. Deus não possui características físicas – Ele é Espírito (Jo 4.24). Da mesma maneira, é impossível que Ele seja literalmente uma rocha material (Sl 42.9). De qualquer modo, nós não saberemos, nesse aspecto literal, aquilo que Deus não é, enquanto não tivermos conhecimento daquilo que Ele literalmente é.
Por exemplo, se não fosse literalmente verdade que Deus é Espírito e Eterno, não poderíamos afirmar que certas referências feitas a Deus em outras passagens da Bíblia não podem interpretadas literalmente, como, por exemplo, uma forma material ou finita. A afirmação de Jesus, em João 15.1: “Eu sou a videira verdadeira...” não é considerada como uma verdade física pelo método de interpretação literal. Muito antes, ela é entendida como uma figura de retórica – ela significa que os crentes recebem sua vida espiritual de Jesus, nossa “videira espiritual”. É importante que tenhamos a compreensão disso, pois a literatura profética e apocalíptica, como Daniel e o livro do Apocalipse, fazem uso frequente de expressões idiomáticas e de figuras retóricas.
Às vezes não é fácil descobrir se uma passagem deve ser compreendida literalmente, ou não. No entanto, existem algumas diretrizes que podem nos auxiliar nesse sentido. Resumindo: um texto pode ser interpretado figurativamente...
quando ele obviamente tem o sentido figurado, por exemplo, quando Jesus afirmou que Ele é a porta (Jo 10.9);
quando o próprio texto indica um sentido figurativo, por exemplo, quando Paulo mostra o sentido alegórico de um texto (Gl 4.24);
quando uma interpretação literal for contrária a outras verdades descritas na Bíblia, ou mesmo fora dela, por exemplo, quando ela fala dos “quatro cantos da terra” (Ap 7.1).
Trazendo tudo a um denominador comum: “Quando o sentido literal faz sentido, não procure por outro sentido, a não ser que o resultado seja um absurdo”.

O método literal não exclui o emprego de símbolos

A Bíblia está repleta de símbolos. No entanto, cada símbolo consta figurativamente em relação a algo literal.
Por exemplo, no livro do Apocalipse aparecem muitos símbolos que representam literalmente coisas concretas. Jesus explicou que as sete estrelas em Sua mão direita representam “os anjos [mensageiros] das sete igrejas” (Ap 1.20) e que os sete candeeiros representam as sete igrejas (Ap 1.20). As taças de incenso representam as orações dos santos (Ap 5.8) e as “águas” simbolizam “povos, multidões, nações e línguas” (Ap 17.1,15). Assim, cada símbolo consta em relação a algo que realmente existe. Muitas vezes há indicações no texto que nos conduzem à intepretação literal oculta nos símbolos – tanto no contexto imediato ou mesmo distante em outra passagem da Escritura.

O método literal não exclui a aplicação de parábolas

Jesus apresentou parábolas que não tinham interpretação literal. No entanto, cada parábola expressa algum objeto literalmente.
Jesus pretendia que as parábolas fossem entendidas pelas pessoas que estivessem dispostas para isso. Ele até explicou duas delas aos Seus discípulos – a Parábola do Semeador (Mt 13.3-9) e a Parábola do Trigo e do Joio (Mt 13.24-30). O Senhor o fez, não somente para dirimir qualquer dúvida sobre a interpretação correta, como também para mostrar aos crentes como as outras parábolas devem ser interpretadas. Jesus não interpretou as demais parábolas, certamente indicando que Ele considerava os crentes capacitados a seguir o Seu método e a compreender o significado literal das mesmas.

Seis razões para empregar o método literal

Existem pelo menos seis bons motivos que favorecem a abordagem literal das Escrituras (incluindo as profecias).
  1. Trata-se do modo normal como cada idioma é entendido.
  2. A maior parte da Bíblia adquire um sentido quando ela é interpretada literalmente.
  3. Esse método permite que haja um sentido secundário (alegórico) quando o contexto assim requer.
  4. Todos os significados secundários (alegóricos), no entanto, são dependentes do significado literal. Não seria possível identificar o que textualmente se refere a Deus enquanto não soubermos o que é literalmente verdade.
  5. Trata-se do único controle sensato e seguro para nossas suposições subjetivas.
  6. É a única abordagem que coincide com a essência da inspiração (do conceito de que as palavras das Escrituras foram geradas pelo “sopro de Deus”).

A confirmação bíblica para o método literal

O próprio texto bíblico fornece numerosas comprovações para o método literal de interpretação. Assim, textos bíblicos mais recentes permitem a compreensão literal de textos mais antigos, como, por exemplo, o relato da Criação, em Gênesis 1-2 (ver Êx 20.10-11). O mesmo ocorre com o relato da criação de Adão e Eva (Mt 19.4-6; 1Tm 2.13); o pecado de Adão e, em consequência, a sua morte (Rm 5.12,14); Noé e o Dilúvio (Mt 24.38) e os relatos sobre Jonas (Mt 12.39-41), Moisés (1Co 10.2-4,11) além dos vários personagens históricos.
Além disso, em Sua primeira vinda, Jesus cumpriu mais de cem profecias. Assim, por exemplo, havia as promessas de que Ele seria:
  • o descendente de uma mulher (Gn 3.15);
  • oriundo da linhagem de Sete (Gn 4.25);
  • descendente de Sem (Gn 9.26);
  • descendente de Abraão (Gn 12.3);
  • descendente da tribo de Judá (Gn 49.10);
  • o Filho de Davi (Jr 23.5-6);
  • nasceria de uma virgem (Is 7.14);
  • nasceria em Belém (Mq 5.2);
  • anunciado como o Messias (Is 40.3);
  • o futuro Rei (Zc 9.9);
  • o sacrifício para o perdão dos nossos pecados (Is 53);
  • traspassado em Seu lado (Zc 12.10);
  • “aniquilado” – morto (Dn 9.24-26), por volta de 33 d.C.;
  • ressuscitado dentre os mortos (Sl 2 e 16).
Observe também: Jesus, ao interpretar a profecia literalmente, indicava de maneira clara que Ele concordava com o método literal de interpretação do Antigo Testamento (Lc 4.16-21).
Ao vermos a Bíblia confirmar a presença de parábolas (Mt 13.3) ou de um significado alegórico (Gl 4.24), ela demonstra que o normal é o significado literal. Além disso, quando Jesus explicava uma parábola, Ele deixava claro que uma parábola traz em si um significado literal (Mt 13.18-23).
Quando Jesus repreendeu aqueles que não consideravam a ressurreição de maneira literal, Ele indicava que a interpretação literal do Antigo Testamento era a correta (Mt 22.29-32). A maneira como Jesus aplicava as Escrituras é uma das provas mais convincentes de que a Bíblia deve ser interpretada literalmente.
O que isso significa é óbvio. Uma cronologia da Profecia, que exige dados exatos, precisa se basear na interpretação literal das profecias bíblicas, individualmente. (Ron Rhodes — Chamada.com.br)

O JEJUM QUE AGRADA A DEUS

PORQUE JEJUAR ?
O Jejum é saudável para o corpo, alma e espírito. 

Focalizaremos três tipos de Jejuns. Ei-los :

A. O JEJUM NORMAL - Mt 4.2. Alguns acham que o Jejum de Jesus foi de abstenção somente de alimentos, já que Satanás não o tentou pela sede e sim pela comida. A sede trás sofrimentos mais aterradores que a fome, a menos que o Jejum de Jesus, tenha sido sobrenatural como o de Moisés e Elias.
O Jejum normal, então, é a abstenção somente de alimentos sólidos ou líquidos, mas não de água.

B. O JEJUM ABSOLUTO - At 9.9. Este é um tipo de Jejum em que a pessoa se abstêm de alimento e de bebida, ele deve durar no máximo três dias, pois ficar sem água no organismo durante muito tempo é prejudicial à saúde.
Jejuns sobrenaturais são os de Moisés (Dt 9.9; Ex 34.28) e Elias (I Rs 19.8). Estes tiveram Jejuns sobrenaturais e o fim deles também foi sobrenatural.
Devemos ter muita certeza da vontade de Deus antes de fazer um Jejum prolongado.

C. O JEJUM PARCIAL - Dn 10.3. Uma restrição na dieta e não uma abstenção completa. Este tipo de Jejum pode servir de primeiro passo para as pessoas de complexão física fraca e para as que estão começando a Jejuar. Este não foi o caso de Daniel, pois ele usou numa visão maior de consagração.

A DECLARAÇÃO DE JESUS SOBRE O JEJUM - Mt 6. 2,5,16. 

A questão aqui é "quando" jejuares e não "se" jejuares. O Jejum deve ser uma prática normal como o Orar e o Dar. Pode haver Oração sem Jejum e também Jejum sem Oração, pelo menos no sentido de intercessão contínua. Parece que os Profetas e Mestres em Antioquía Jejuavam e Adoravam ao Senhor continuamente. O Jejum é para hoje (Mt 9.15). A Igreja está passando pelo período da ausência do Noivo.

 JEJUNS PÚBLICOS E REGULARES - Jr 36.6; Jl 2.15

Os Israelitas tinham um Jejum anual como o Jejum da Expiação (Lv 23.27; 16.29; Nm 29.7). Na época de Zacarias havia Jejum no quinto e no sétimo mês (Zc 7.3-5). Os Jejuns devem ser feitos quando a ocasião e a necessidade exigirem. Devemos nos cuidar do período de um determinado dia do ano para Jejuar, pois pode tornar-se em algo vazio, sem forma, como um ritual. Isto não deve nos impedir de Jejuar, ocasionalmente e sempre que o Senhor pedir.

JEJUANDO PARA DEUS - Zc 7.5; At 13.2

O Jejum não deve ser uma forma externa de santificação. Deve ser para Deus que vê em secreto. Pode-se cair no desejo extremo dos Fariseus de aparecerem ou no desejo pessoal, egoístico, para satisfazer ambições pessoais sem que o motivo seja a Glória de Deus. Isaías 58 fala que o Jejum agradável para Deus é o Jejum que
Ele escolheu. O Jejum, assim como a Oração deve ter a sua origem em Deus para que tenha efeito.

PROPÓSITO DO JEJUM 

Vimos que é importante Jejuar, os vários tipos de Jejuns, por isso vejamos agora para que serve o Jejum?

A. PARA SANTIFICAÇÃO INDIVIDUAL (Sl 69.10; 35.13). Por trás dos pecados que tentam nos dominar, dos fracassos pessoais e dos muitos males que afetam a Igreja ao obstruir os canais da Benção de Deus, por trás dos choques de personalidades, temperamentos se encontra o orgulho do homem. O Jejum é um corretivo divino que prepara a terra, quebra o orgulho disciplina o corpo e humilha a alma.

B. PARA BUSCAR A DEUS E SE HUMILHAR (Ed 8.21-23; Ne 9.1-3). O Jejum dá asas a Oração, dá Poder nas Petições. A Oração é a guerra contra as forças opositoras. O Homem que Ora com Jejuns testifica aos Céus que quer aquilo que busca (Jr 29.13-14; Jl 2.12). "O Jejum serve para expressar, aprofundar e confirmar a resolução de que estamos prontos para sacrificar qualquer coisa a fim de conseguir o que buscamos para o Reino de Deus"(André Murray). O Homem que Ora com Jejuns está dizendo aos Céus que é sincero, que está "importunando" e mostrando porque o seu caso é urgente.

C. PARA QUE DEUS MUDE A SITUAÇÃO (Jn 3.4,10). Aqui uma cidade prevaleceu com Deus pelo jejum e a Oração. Deus enviou Jonas a cidade de Nínive a fim de estender a Sua Misericórdia aos Ninivitas. O pecado é visitado com Juízo, mas o Arrependimento com Misericórdia (Jr 18.7-8). Acabe Jejuou "para o mal" até possuir a Vinha de Nabote, ao ser alertado por Deus através de Elias, Acabe se Arrependeu e Deus não fez o mal que prometera em seus dias ( I Rs 21.27-29; Jl 2.12-14).

D. PARA SOLTAR OS CATIVOS (Is 58. 6). Há em Isaías 58.6 uma aplicação espiritual para os nossos dias. É uma luta travada nas "regiões celestiais". Satanás é um adversário duro e não quer tirar as suas mãos das vidas a menos que seja forçado a fazê-lo. O Jejum provê esta força é um fortalecimento do intercessor para forçar o inimigo a largar a sua presa. No caso do discípulo o jejum é uma arma com a qual podemos vencer ao Diabo (Mc 9.29). Dá também autoridade ao Discípulo no momento que dá a ordem de libertação.

E. PARA RECEBER REVELAÇÃO (Dn 9. 2,3,21,22). No Novo Testamento há casos de Jejum (At 10.10) Pedro; Paulo (At 27.21-24); Paulo Jejuava com frequencia (II Co 11.27) e o Capítulo seguinte fala de suas grandes Revelações. Nada nas Escrituras indica que devemos andar a cata de Sonhos e Revelações. Quando se busca a Deus, entretanto, pode-se encontrá-las. Necessitamos constantemente da Revelação de Deus para as nossas vidas.

F. PARA SUBJUGAR O CORPO (I Co 9.27; Ex 16.3; Nm 11.4-5, 21.5). O modo mais fácil de chegarmos a uma pessoa é através de seu estômago. Foi assim com Eva, Noé (Gn 3.6; 9.20-21). Deus nos deu o corpo e certos instintos básicos que incluem os apetites do corpo, mas Ele requer que tenhamos o físico submisso ao espiritual. O Discípulo deve distinguir a linha entre satisfazer os desejos do corpo e as demandas do espírito. Paulo insiste em disciplinar o corpo para não "satisfazer os desejos da carne" (Rm 13.14), "revestir-se do Senhor Jesus".
O Jejum deve ser para o discípulo um exercício espiritual normal, assim como para um atleta é o preparo físico. O Novo Testamento sempre alerta assim: "Foge... dos desejos da mocidade"(II Tm 2.22); "Renunciando... aos desejos mundanos"(Tt 2.12); "Peço-vos... que vos abstenhais dos desejos carnais"(I Pe 2.11). É importante eliminar alimentos que trazem vícios ao corpo.

ASPECTOS PRÁTICOS DO JEJUM

A. O JEJUM E O CORPO (I Co 6.13, 19-20). Um corpo normal, saudável e bem alimentado, pode resistir ao Jejum por várias semanas, sem ser prejudicado. O corpo se alimenta do excesso de gorduras e somente depois de muito tempo é que começa a consumir as células vivas e entra então em estado de inanição. O Jejum ajuda o corpo a purificar-se.

B. PARA A SAÚDE E CURA (III Jo 2; Is 58.8). A promessa da cura está incluída no Jejum escolhido por Deus. No Jejum os depósitos de gorduras, material desgastado e tecidos mortos são digeridos e eliminados.

C. COMO COMEÇAR:

1. Não comece logo Jejuando 40 dias !
2. Comece com Jejum Parcial. Abstendo-se apenas do café da manhã.
3. Progressivamente elimine o almoço e depois também a janta.
4. Antes de dormir "quebre" o Jejum com uma fruta, não coma muito.
5. Não devemos comer muito no dia que antecede o Jejum.
6. Quanto mais longo for o Jejum, mais precisamos nos certificar de que é da vontade de Deus que Jejuemos.
7. É bom eliminar o chá e o café gradativamente, quem quer ter a prática do jejum não pode depender do café ou do chá.
8. Prepare-se para que o Jejum seja um tempo de lutas contra os poderes das trevas; sempre faça estas perguntas:

a. Tenho certeza que este desejo de Jejuar procede de Deus?
b. Deus quer um Jejum Normal ou Parcial?
c. São os motivos corretos? Haveria um desejo oculto de causar impressão aos outros?
d. Quais são os objetivos espirituais que busco com este Jejum?(Santificação pessoal ou consagração; por problemas; intervenção divina; orientação; bençãos; plenitude do Espírito Santo para mim ou para os outros; para libertar os cativos; acalmar a ira divina e pedir avivamento).
e. São os meus objetivos egocêntricos? Estes desejos de benção pessoal está equilibrado por uma sincera preocupação com os outros?
f. Acima de qualquer coisa será que a minha determinação é a de servir ao Senhor durante este Jejum?

D. COMO TERMINAR O JEJUM.

Um Jejum prolongado não deve ser terminado comendo-se comidas que fermentem muito (I Sm 30.11-12).

* ESTES DADOS FORAM RETIRADOS DO LIVRO DE ARTHUR WALLIS: "O JEJUM ESCOLHIDO POR DEUS".
 
Fonte: aportadoreino.blogspot.com.br 

15 de mar. de 2016

LÓ, O SOBRINHO DE ABRAÃO


 

Ló, o Sobrinho de Abraão — Apesar de Tudo, um Santo de Deus

Não se deve julgar um livro pela sua capa!!



Como vemos registrado em Gênesis 11:27, o patriarca Abraão tornou-se tio quando seu irmão Harã teve um filho. A criança recebeu o nome de Ló (que em hebraico significa "cobertura") e no verso 28 ficamos sabendo que seu pai morreu antes de a família se mudar de Ur dos caldeus (uma cidade que estaria situada no atual Iraque). A partir do relato do capítulo 12 em diante, parece que Abrão assumiu o papel de pai de Ló:
"Ora, o SENHOR disse a Abrão: Sai-te da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai, para a terra que eu te mostrarei. E far-te-ei uma grande nação, e abençoar-te-ei e engrandecerei o teu nome; e tu serás uma bênção. E abençoarei os que te abençoarem, e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; e em ti serão benditas todas as famílias da terra." [Gênesis 12:1-3; ênfase adicionada].
Precisamos observar que o chamado de Deus a Abrão (a quem Deus renomeou como Abraão) precedeu a mudança original da família da cidade de Ur para a terra de Canaã [11:31]. No verso 1 do capítulo 12, Deus disse a Abrão para deixar sua terra, sua parentela e a casa de seu pai. Mas, aparentemente, quando Abrão informou seu pai Terá de sua intenção de partir, Satanás entrou no quadro! Por que digo isso se a narrativa nada diz? Simplesmente por que as ações subseqüentes de Terá "telegrafam" essa mensagem. Pense nisto — Terá teve três filhos, o mais novo dos quais está agora morto (Harã) e o mais velho (Abrão) recebeu a visitação de um "deus" (como o pagão Terá deve ter imaginado) e está agora decidido a deixar toda a família para trás e se mudar para um lugar distante mais de 1.500 km! Assim, para lidar com esse dilema, Terá decide também deixar tudo para trás — incluindo Naor, o filho do meio e a família dele — e partir com Abrão para um futuro muito incerto. Dizer que isso vai contra o senso comum seria uma suavização. Em seguida, Terá (cujo nome, de forma muito apropriada, significa "atraso") atrapalha Abrão indo somente um pouco mais da metade do caminho para onde Deus o estaria levando. Seguindo a rota conhecida como "crescente fértil", que era regada pelos rios Tigre e Eufrates — áreas verdes no meio de regiões áridas — eles chegaram até as nascentes e Terá decidiu parar e se estabelecer naquele local.
Então, uma vez que eles armaram suas tendas, parece provável que o velho homem deu ao novo local de residência um nome em homenagem ao seu filho que tinha morrido. Embora eles já tivessem viajado uma boa distância — ainda estavam bem longe do local em que Deus desejava que Abrão se estabelecesse. Abrão tinha sido especificamente escolhido dentre todos os homens e Satanás certamente tomou nota disso. O objetivo de Deus de prover um Salvador foi revelado no Jardim do Éden [Gênesis 3:15] — naquilo que os teólogos chamam de "proto-evangelho" — o protótipo da mensagem do evangelho. Se olharmos com atenção, descobriremos que em todo o Antigo Testamento, Satanás fez muitas tentativas para estorvar esse plano, estando este incidente claramente entre eles.
Quanto tempo eles passaram em Harã não é indicado no texto bíblico, mas sabemos que Abrão tinha 75 anos quando finalmente reiniciou sua jornada após a morte de seu pai [12:4]. Não há dúvidas que o atraso veio como resultado da obediência à vontade de seu pai terreno, mas os anos em Harã foram desperdiçados por que a obediência ao chamado celestial estava incompleta. Somente quando fazemos exatamente aquilo que Deus nos diz é que podemos esperar receber um galardão completo. E não se engane a respeito disto — o Diabo usará nosso amor à família para se opor à vontade de Deus para nossas vidas, se permitirmos que ele faça isso.
Finalmente, Abrão reuniu sua família — incluindo seu sobrinho Ló — e continuou o processo de separação, conforme Deus o tinha instruído anos antes. Veja: o povo de Ur, a cidade natal de Abrão — bem como seu pai e a família ampliada — não eram adoradores de Jeová. Eles eram politeístas, pois adoravam muitos deuses e rotineiramente se inclinavam diante deles. Portanto, o intento de Deus era afastar Abrão desse ambiente espiritualmente decaído para o lugar de bênçãos — a terra de Canaã.
À medida que a jornada de Abrão continuou, vemos que ele cresceu espiritualmente à medida que lapsos de discernimento ensinaram-lhe preciosas lições. Mas, em geral, sua vida foi caracterizada pela retidão. [Gênesis 15:6].
Entretanto, quando consideramos seu sobrinho Ló, encontramos um agudo contraste no modo como eles viveram suas vidas! Como muitos cristãos hoje em dia, Ló amava as coisas deste mundo e fazia tudo o que podia para "ser alguém". Em vez de imitar o exemplo de seu tio piedoso e depender do Senhor para suprir todas suas necessidades, ele exibia uma atitude de ingratidão. Os versos 5 e 6 do capítulo 13 nos dizem que Ló foi grandemente abençoado enquanto permaneceu com Abraão:
"E também Ló, que ia com Abrão, tinha rebanhos, gado e tendas. E não tinha capacidade a terra para poderem habitar juntos; porque os seus bens eram muitos; de maneira que não podiam habitar juntos." [Gênesis 13:5-6].
Mas logo ele quis mais e quando Abrão gentilmente permitiu que ele escolhesse que parte da terra ele queria, Ló aproveitou-se da oportunidade e escolheu a melhor — "a campina do Jordão", que o verso 10 chama de "jardim do Senhor" por causa de sua beleza comparável ao Jardim do Éden. Entretanto, existiam espinhos naquela bela rosa que Ló não reconheceu! As cidades extremamente ímpias de Sodoma e Gomorra estavam situadas ali e em breve "Ló armou suas tendas até Sodoma". [verso 12].
Como alguém já disse: "Deus opera de formas misteriosas suas maravilhas" e nos versos 14-18 encontramos uma pista que nos mostra que a separação de Ló de Abrão era a vontade de Deus — por que a aliança de Deus só foi estabelecida depois que Ló partiu:
"E disse o SENHOR a Abrão, depois que Ló se apartou dele: Levanta agora os teus olhos, e olha desde o lugar onde estás, para o lado do norte, e do sul, e do oriente, e do ocidente; porque toda esta terra que vês, te hei de dar a ti, e à tua descendência, para sempre. E farei a tua descendência como o pó da terra; de maneira que se alguém puder contar o pó da terra, também a tua descendência será contada. Levanta-te, percorre essa terra, no seu comprimento e na sua largura; porque a ti a darei. E Abrão mudou as suas tendas, e foi, e habitou nos carvalhais de Manre, que estão junto a Hebrom; e edificou ali um altar ao SENHOR." [Gênesis 13:14-18].
Essa promessa feita a Abrão (a quem Deus mais tarde renomeou como Abraão) é chamada de "Aliança com Abraão" e é incondicional. Não existiam "cordões amarrados" com base em Abrão ser um bom menino e comer seus legumes. Não, isso significa exatamente aquilo o que diz e é uma aliança eterna e incondicional prometida à maior de todas as sementes de Abraão — Jesus Cristo e todos os Seus eleitos — começando com os eleitos entre os judeus. (E o remanescente eleito de crentes judeus hoje — juntamente com os eleitos entre os gentios — ambos estando "em Cristo" [Efésios 1:4] — agora são herdeiros da terra de Canaã, que o mundo chama de Palestina!)
"Ora, as promessas foram feitas a Abraão e à sua descendência. Não diz: E às descendências, como falando de muitas, mas como de uma só: E à tua descendência, que é Cristo." [Gálatas 3:16].
"Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu, e também do grego." [Romanos 1:16; ênfase adicionada].
"Glória, porém, e honra e paz a qualquer que pratica o bem; primeiramente ao judeu e também ao grego." [Romanos 2:10].
Em seguida, no capítulo 14, ficamos sabendo que Ló e sua família foram tomados cativos pelos exércitos de quatro reis confederados que atacaram Sodoma e Gomorra. Quando Abrão ficou sabendo o que tinha acontecido, imediatamente reuniu 318 de seus servos e perseguiu os invasores até que os alcançou em Dã — uma localidade situada no extremo norte de Canaã. Abrão dividiu seu pequeno "exército" em duas unidades e surpreendeu a força muito superior atacando-a à noite. Os reis foram mortos e todos os cativos e seus bens foram recuperados, mas Ló obviamente não aprendeu a lição — porque voltou direto para Sodoma! Na próxima vez que o encontramos, o texto diz que ele estava na porta da cidade [Gênesis 19:1]. Há um velho adágio que diz mais ou menos assim: "Uma vez que o camelo ponha seu nariz para dentro da tenda, a próxima coisa que você saberá é que poderá encontrar o camelo dentro da tenda!" Ló começou a "armar suas tendas até Sodoma", que é uma metáfora para dizer que ele cobiçou as coisas do mundo. Em seguida, ele continuou se aproximando cada vez mais com o passar do tempo, até que finalmente se mudou e se estabeleceu naquela cidade extremamente ímpia. E agora, pelo fato de estar sentado à porta da cidade, podemos saber que ele tinha se tornado um político — um líder daquela comunidade! Havia um costume de os anciãos assentarem-se à porta da cidade para ouvir e julgar as disputas jurídicas entre o povo. Assim, nosso amigo Ló é agora uma figura importante naquela cidade e está totalmente integrado na vida secular de Sodoma. Mas o que ele ignora é que Deus tinha aparecido anteriormente a Abrão (no capítulo 18) e dito que as cidades de Sodoma e Gomorra seriam destruídas por causa de sua impiedade. Bem, Abrão ainda ama seu sobrinho e tenta imediatamente interceder com Deus em um esforço de salvar Ló e sua família da destruição. Ao negociar com Deus como seu amigo [Tiago 2:23], ele consegue fazer Deus dizer que pouparia a cidade se encontrasse apenas dez justos nela.
Sabemos que a família de Ló consistia de pelo menos dez pessoas por causa do número final que Abrão buscou — (Ló, sua mulher, duas filhas ainda solteiras, e pelo menos duas filhas casadas [19:14 — em que "filhas" está no plural] e seus maridos, e talvez filhos?). Mas, de qualquer maneira, os eventos subseqüentes provam que os dez justos não foram encontrados — e esse fato fala muito claramente sobre a falta de testemunho de Ló com sua família. Quando ele advertiu seus genros a fugirem, foi tido por zombador aos olhos deles. [verso 14].
Assim, os anjos que foram enviados para destruir as cidades então apressaram Ló para pegar sua mulher e as duas filhas e fugir para salvarem suas vidas. "Sendo-lhe o Senhor misericordioso" (verso 16), os anjos literalmente os pegaram pelas mãos e os tiraram da cidade — instruindo-os a escaparem para o monte para que não perecessem com as cidades. E para mostrar a gravidade do declínio espiritual de Ló, em vez de escapar para o monte, ele pede permissão para fugir para a pequena cidade de Zoar, que estava ali perto. Exasperado, o anjo concorda em poupar Zoar para que Ló e sua família possam se abrigar ali (verso 21). Em seguida, no verso 22, encontramos um tremendo princípio da Palavra de Deus:
"Apressa-te, escapa-te para ali; porque nada poderei fazer, enquanto não tiveres ali chegado. Por isso se chamou o nome da cidade Zoar." [Gênesis 19:22; ênfase adicionada].
Os anjos vingadores de Deus não estavam autorizados a executar o julgamento até que aqueles que estavam sob a proteção de Deus fossem postos em segurança. Mas era essa proteção unicamente devido à intercessão de Abrão? Fique ligado...
Anteriormente, os anjos tinham instruído Ló e sua família a não olharem para trás (verso 17) e eles fugiram para Zoar. Assim que Ló entrou na cidade — "o SENHOR fez chover enxofre e fogo, do SENHOR, desde os céus, sobre Sodoma e Gomorra" — destruindo totalmente as cidades da planície, com a única exceção de Zoar, escolhida como refúgio por Ló e sua família. Mas a irresistível atração daquilo que o pecado tem a oferecer dominava a mulher de Ló e ela não conseguia deixar de pensar em seus bens que ficaram em Sodoma. Por causa dessa desobediência, ela foi instantaneamente convertida em uma coluna de sal [verso 26]. O livramento estava tão perto, mas por cobiçar as coisas do mundo ela também pereceu.
O que aconteceu em seguida é repugnante, mas retrata vividamente como Ló tinha ensinado pouco à sua família sobre os valores espirituais — as coisas que ele sem dúvida alguma aprendeu quando viveu com seu piedoso tio Abrão — mas deixou de transmitir para seus próprios familiares.
Temendo por sua vida, Ló levou suas duas filhas para o monte e foi morar em uma caverna. Algum tempo depois, a filha mais velha "teve uma idéia" (e sabemos com quem essa idéia se originou, não sabemos? — o mesmo que quis atrapalhar quando Abrão tentou se separar do mundo e de sua parentela em Ur dos caldeus!) Ela disse à irmã mais nova que as possibilidades de elas se casarem e terem filhos eram remotas, de modo que para a árvore genealógica da família sobreviver — elas teriam de agir com suas próprias mãos. Assim, ela planejou embriagar seu pai naquela noite e manter intercurso sexual com ele. O plano funcionou e Ló estava tão bêbado que não percebeu quando ela veio nem quando saiu de sua cama. Na noite seguinte a irmã mais nova fez a mesma coisa, com os mesmos resultados. Ambas engravidaram de um relacionamento incestuoso com o próprio pai e eu fico imaginando quanto tempo levou para Ló descobrir todos os detalhes de como aquilo tinha acontecido!
Esse incidente me faz lembrar uma passagem das Escrituras que diz:
"Não erreis: Deus não se deixa escarnecer; porque tudo o que o homem semear, isso também ceifará. Porque o que semeia na sua carne, da carne ceifará a corrupção; mas o que semeia no Espírito, do Espírito ceifará a vida eterna." [Gálatas 6:7-8].
Ló amou o mundo e deu corda para seus desejos carnais. Ele claramente colheu os frutos das "sementes" que plantou em suas filhas. Ambas tiveram meninos. A mais velha chamou seu filho de Moabe e a mais nova chamou seu bebê de Ben-Amí. Mais tarde, esses dois meninos cresceram e tomaram mulheres gentias como esposas, e assim deram origem aos povos moabita e amonita — ambos amargos inimigos de Israel em toda sua história!
(Antes que nos esqueçamos de Abrão neste mesmo departamento, vamos lembrar que ele tentou "ajudar Deus" a prover o filho que foi prometido e tomou Hagar, a serva egípcia, como sua mulher. Ela deu à luz Ismael — o pai dos povos árabes, e eles também têm sido um espinho na carne de Israel até o dia de hoje.)
O que podemos então concluir a respeito desse homem, Ló? É remotamente concebível que devamos esperar encontrar esse sujeito pecaminoso e mundano no reino eterno de Deus? Com base nas evidências apresentadas no livro de Gênesis, receio que a maioria de nós tenha sérias dúvidas! Mas, louvado seja o Senhor, a salvação não depende das opiniões dos homens e o apóstolo Pedro dissipa todas as dúvidas quando diz:
"E condenou à destruição as cidades de Sodoma e Gomorra, reduzindo-as a cinza, e pondo-as para exemplo aos que vivessem impiamente; e livrou o justo Ló, enfadado da vida dissoluta dos homens abomináveis (porque este justo, habitando entre eles, afligia todos os dias a sua alma justa, vendo e ouvindo sobre as suas obras injustas)." [2 Pedro 2:6-8; ênfase adicionada].
Ló não podia acusar ninguém, somente a si mesmo, e seus próprios pecados o torturaram a cada dia enquanto ele viveu entre aquele povo vil e ímpio de Sodoma. Mas ele também será um dia julgado pelo Senhor Jesus Cristo — juntamente com todos os indivíduos eleitos do Antigo Testamento — e receber uma repreensão por ter sido um servo inútil parece que será uma possibilidade muito distinta para ele. Entretanto, devemos meditar naquilo que a inspirada Palavra de Deus diz por meio do apóstolo Pedro — Ló era inegavelmente um filho eleito da graça de Deus e seus pecados não comprometeram de modo algum sua salvação. Destarte, para aqueles de vocês que estão convencidos que alguém pode perder a salvação, o que mais poderia Ló ter feito para perdê-la??!!

Fonte: Espada do Espírito